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Acorda, Brasil!
Por Francisco A. Itzaina, CBE

O mundo entrou no século XXI, mas o Brasil ainda não. Estamos nos isolando. Nossos governantes não entendem a encruzilhada geopolítica atual.

Acorda, Brasil! A sociedade e os políticos que a representam precisam assumir a responsabilidade do nosso progresso socio-econômico nos anos futuros. Não temos a fórmula. Só podemos enumerar os parâmetros que, na nossa visão, precisam mudar urgentemente. Cabe à sociedade como um todo reagir. O dever de casa para nos reposicionar no mundo contemporâneo é longo. A condição presentenos fará regredir em relaçãoa maioria dasnações. É imperativo começar hoje! Não podemos ficar inertes um minuto mais, e inertes estamos.

O Brasil passou por um período de euforia, devido ao então alto preço das commodities e ao apetite exacerbado da China durante seu pico de crescimento. Porém esses preços caíram e esse apetite amainou. Atravessamos agora uma contração econômica, com moeda depreciada, inflação de 10%, um marasmo político por causa da corrupção e possível fraude eleitoral, tendo perdido o grau de investimento devido à política econômica equivocada.

Vejamos os elementos básicos das tendências mundiais e nossa posição atual.

O comércio internacional está avançando na organização de cadeias de suprimento integradas global e regionalmente, visando melhorar a competitividade dos produtos e serviços.

Nossos políticos e a sociedade, por ignorância, inércia e/ou dogmatismo cego, mantêm-se ancorados em crenças político-sociais do século passado, totalmente anacrônicas.

Não temos política industrial no Brasil, existindo só pseudo-políticas, como as regras de conteúdo local no mercado de óleo e gás, que falharam por não reconhecer as mudanças em curso no comercio global acima mencionadas.

Se não redirecionarmos rapidamente nosso posicionamento, perderemos novamente a chance de desenvolvimento sustentável. A primeira janela de oportunidade já passou. Temos a chance de pular por uma segunda janela, inspirados numa eventual vontade de mudar nosso ritmo e direção no mundo geopolítico.

A posição privilegiada do Brasil de alguns anos atrás sumiu. Estamoslonge de ser o destino de investimento das empresas globais: o mercado interno está encolhendo e não somos agressivos para nos incorporarmosàs redes globais de suprimento a que nos referíamos. Com a economia deprimida e dúvidas sobre a transparência no setor público, essa distância se torna ainda maior. Precisamos reconstruir a confiança para sernovamente a vedete internacional que já fomos.

Falta foco do governo e do setor privado na melhoria da produtividade. Já faz muitos anos que nossa produtividade está em queda, porém em outros países este parâmetro melhora ano após ano, incidindo positivamente na competitividade e alavancando a tão desejada melhoria da massa salarial. Nossos políticos, sindicatos eempresários não parecem entender a seriedade deste problema.

O governo quer desenvolver tecnologia no País. Concordamos com esta meta, mas discordamos da forma pífia como está sendo perseguida e da intenção de só criar tecnologia do ponto zero. O programa Ciência Sem Fronteiras, com 100.000 estudantes brasileiros treinados em universidades do mundo todo para criar os cientistas do futuro, é muito louvável, mas carece de senso prático. Levará anos preparar essa turma; é difícil identificar candidatos aptos para preencher todas essas vagas; uma grande parte dos candidatos com potencial optarão por ficar no exterior, onde serão mais valorizados do que no Brasil. Se este programa não tem um futuro brilhante, como mudar o viés tecnológico da nossa indústria? A propósito, nas áreas agrícola, de aviação e de exploração de petróleo em águas profundas já conseguimos desenvolver tecnologia de ponta no País, mas não damos importância suficiente a eles por estar atrelados a commodities ou à tecnologia importada. Os chineses enfatizam o treinamento dos seus jovens cientistasparamelhorar a tecnologia na indústria, mastambém importam (ou copiam) tecnologia estrangeira. Não estamos sugerindo desrespeitar as leis internacionais de proteção à propriedade intelectual, mas sim um incentivo à importação destas tecnologias, para melhorar a produtividade e a competitividade. Também precisamos incentivar o retorno de nossos flamantes formandos no exterior, criando canais de engajamento na indústria local para facilitar o seu retorno.

Precisamos abrir a economia. O fluxo de comércio do Brasil, de aproximadamente 21% do PIB, é um dos mais baixos no mundo considerando ambos, países desenvolvidos e emergentes. Nossa economia continua muito fechada. Se pretendemos seriamente nos incorporar ao comércio mundial e às cadeias globais de suprimento, precisamos exportar e importar muito mais. O tradicional viés protetor da indústria local simplesmente está "afogando" nossa economia, eliminando nossas chances de desenvolvimento sustentável com competitividade externa. Nossos políticos, líderes sindicais e empresários precisam acordar para isto, ou continuaremos pelo caminho errado. O Brasil precisa adotar novas políticas de desenvolvimento, com práticas modernas de participação em cadeias globais de produção para não ficarmos presos ao século passado.

Para tudo istoé necessária uma política industrial séria e uma política de comércio exterior coerente e atualizada, que todos os atores econômicos possam entender e confiar na sua manutenção no tempo, para canalizar investimentos a longo prazo sem as surpresas de mudança de rumo ditadas por posições dogmáticas ou por interesses particulares do momento. Precisamos planejar nosso crescimento, aceitando a modernidade de certas tendencias irreversíveis no mundo. Os recentes acordos TPP (Trans-Pacific Partnership) e Aliança do Pacífico, e o futuro tratado do Atlântico, revelam claramente essa orientação em termos de trocas comerciais nas próximas décadas.

O Brasil está fora desses importantes acordos comerciais. Em breve, a Argentina tomará também uma orientação mais afinada com tendências globais de crescimento, deixando nosso País preso a um Mercosul que já não existe na prática, tendo como futuro parceiro somente uma Venezuela autoritária, anacrônica, antidemocrática e sem perspectivas de inserção no mundo moderno. Precisamos acordar urgentemente!

É necessária uma regra da Nação, uma política de crescimento de Estado não de governo, uma política que seja mantida por um tempo razoável, mesmo que mude a orientação político-ideológica dos sucessivos governos. Foi assim que importantes economias do mundo cresceram, com uma visão pragmática de longo prazo, não puramente ideológica.

Precisamos entender nossas vantagens comparativas. Somos privilegiados com uma reserva importante de minerais e petróleo, uma terra fértil e um caudal de água potável impressionante (entre 12% a 17% da água potável do mundo), recursos estes que juntos podem produzir 50% mais alimentos do que atualmente, sem sequer avançar na selva amazônica. O mundo, e mais precisamente as grandes nações emergentes como China e Índia, deverão importar mais alimentos, a medida que se desenvolvem, já que não têm os recursos naturais necessários dentro das suas fronteiras para satisfazer uma população com crescente poder aquisitivo. Brasil, partes da África e América Latina, serão os celeiros do mundo futuro. É importante desenvolver de forma competitiva nossa indústria, mas precisamos reconhecer que nosso DNA é de commodities. A política industrial precisa apontar para agregar valor na agroindústria como pilar importante de desenvolvimento futuro. Temos uma base, mas continuamos exportando soja e minério de ferro sem maior industrialização.

Éclaro que precisamos uma melhor infraestrutura logística para reduzir o custo dos nossos produtos. Várias iniciativas foram abordadas, privilegiando de forma equivocada empresas construtoras locais ou "campeões nacionais". O Brasil precisa criar o arcabouço legal pós Lava Jato que permita a entrada de empresas de infraestrutura internacionais, talvez em parceria com empresas locais, trazendo tecnologia e processos que beneficiarão o custo final dos projetos.

Nossas câmaras de comércio ou federações industriais também precisam se modernizar. Embora haja sinais de tímidas mudanças, o protecionismo cego ao capital nacional, que nos levou em grande parte ao marasmo e atraso atuais, ainda continua veladamente presente. O industrial brasileiro precisa aprender a concorrer em um mundo sem fronteiras comerciais, sem a proteção errônea de governos, seja motivada por ignorância, xenofobia ou interesses privados ocultos. Precisa investir em tecnologia para melhorar a sua produtividade e competitividade. O Estado precisa, sim, ajudar os industriais a fazer isto, mas baseado emsólida política industrial indicando claramente a quem apoiar e por quanto tempo. O bem estar do Brasil e dos brasileiros deve se sobrepor a interessespessoais para poder prosperar de forma sustentável como país.

Precisamos aprender com nossa história, com os fatores evolutivos da sociedade global, adotando um pragmatismo responsável na procura da nossa evolução como nação. Para isto nosso povo precisa melhorar sua consciência cívica e o respeito por leis coerentes, efetivas e eficientes para viver bem em sociedade. Precisamos eleger melhor nossos governantes para aproveitar os grandes benefícios da democracia que, sem esta cultura cívica mais apurada, fragiliza-se sobremaneira, levando-nos por caminhos que nos afastam da nossa meta de bem estar geral a médio e longo prazos. Portanto, o Brasil precisa focar na sua educação cívica, não só na educação formal.

Aliás, a educação formal deixa muito a desejar. A meritocracia no setor de educação para incentivar os professores a ensinar mais eficientemente seria fundamental. Para isto o Brasil precisa derrubar certos dogmas sindicais que nos impossibilitam de adotar um sistema que premiaria o desempenho por cima do tempo de casa dos professores.

Instituir a meritocracia também é necessário no setor público reduzindo despesas enquanto melhoramos os serviços prestados. O tamanho do Estado precisa ser reduzido, mudando essencialmente sua ação. O povo precisa entender que somos nós que pagamos a conta da má gestão pública e não um "Estado" impessoal. A propósito, já temos uma carga tributária exagerada. Esta mudança na percepção dos brasileiros com relação ao Estado deve formar parte da melhoria da cultura cívica.

Um custo excessivo que precisamos reduziré a Previdência Social, necessitando uma virada prodigiosa e corajosa. A parcela ativa da sociedade, que está envelhecendo devido amaior longevidade e taxa de fertilidade reduzida, não tem como manter um crescente número de inativos. Precisamos rever o sistema de aposentadorias, principalmente do setor público que mais oneram o sistema atualmente. Devemos talvez considerar um sistema por tempo de serviço e aporte previdencial, exclusivamente, aumentando a idade mínima de aposentadoriaem concordância com o avanço da longevidade da população do País. O sistema previdenciário precisa ser auto-sustentávelsem incorrer nos déficits atuais, barreiras importantes para nossa competitividade como nação.

O Brasil precisa planejar para o médio e longo prazos. Não podemos continuar a enxergar só o curto prazo. As autocracias não planejam melhor que o mundo ocidental democrático, mas planejam. Quase sempre ações planejadas, mesmo que não totalmente corretas, surtem mais efeito que uma total falta de planejamento. Uma política industrial e comercial de estado seria um passo importante para escolher um caminho a longo prazo.

Há falta de líderes com visão dopaís, alheios às posições egoístas, anacrônicas e interesseiras dos atuais partidos políticos em geral. Aliás,o mundo todo carece de um número suficiente de líderes responsáveis, que indiquem o caminho a frente. O Brasil não é exceção. Os poucos líderes com visão e não corruptos que poderiam conduzir nosso povo pelos caminhos sustentáveis do progresso ou estão muito idosos, ou não têm carisma, ou não querem se sujar entrando na área política que certamente não é bem vista hoje.

Temos um país maravilhoso, recursos naturais fantásticos, uma democracia que pode melhorar, mas consolidada e com instituições fortes, 200 milhões de pessoas falando praticamente uma só língua e a maioria professando uma religião básica, sem grandes conflitos étnicos ou territoriais. Não sofremos grandes catástrofes naturais. Nosso povo é trabalhador, mas precisamos trabalhar ainda mais e melhor, usando tecnologia e visando maior produtividade. O povo tem um otimismo maravilhoso apesar das circunstâncias adversas que enfrenta de tempos em tempos. Esse otimismo deveria nos devolver a confiança no futuro do País, assim que estabeleçamos um planejamento de longo prazo. Só precisamos identificar os líderes certos, melhorar nossa consciência cívica e focar nos elementos corretos para um progresso acelerado no futuro. Mãos à obra, gente!

Francisco A. Itzaina, CBE é sócio da Boyden global executivesearch e diretor das câmaras britânica e canadense no Brasil. Foi presidente da Rolls-Royce América do Sul, Moore América Latina e Filtrona (Bunzl), e diretor da W. R. Grace Brasil.