Debate ocorreu em webinar promovido pela Britcham com especialistas em saúde e segurança do trabalho
São Paulo, 10 de abril de 2026 – A atualização da NR-1 trouxe uma mudança importante para as empresas. A norma, que reúne as diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho no Brasil, passou a citar de forma explícita os riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Na prática, porém, isso não deveria ser novidade. Segundo Mauro Marques Muller, auditor fiscal do Trabalho e coordenador do grupo responsável pela revisão do GRO/PGR, o que mudou foi mais a forma de comunicar do que a obrigação em si.
“Todos os riscos já deveriam estar contemplados no gerenciamento de riscos ocupacionais, não importa a sua natureza. A inclusão expressa dos fatores psicossociais veio justamente para evitar qualquer dúvida”, afirmou.
A declaração ocorreu durante webinar “Alterações na NR‑1 e a inclusão dos riscos psicossociais no PGR” promovido pela Britcham na quinta-feira (09). Ao longo do encontro, Muller destacou que a forte repercussão do tema revela a dificuldade antiga das empresas de sair do papel e aplicar, de fato, a gestão de riscos no dia a dia.
“O que essa repercussão toda mostra é que, na prática, a grande maioria das empresas não estava fazendo esse trabalho ou não estava fazendo bem essa parte”, disse.
A NR-1 faz parte de um conjunto de normas que estruturam a saúde e segurança do trabalho no país. Esse modelo mais atual começou a ser desenhado em 2019 e passou a valer em 2022, junto com outras normas, como a NR-7, NR-9 e NR-17.
A ideia sempre foi integrar tudo em um único sistema de gestão. Dentro desse sistema, os riscos psicossociais já existiam, especialmente na NR-17, que trata de ergonomia. O problema, segundo Muller, é que eles acabavam sendo deixados de lado.
“Os fatores de risco psicossociais estão diretamente relacionados a problemas na organização do trabalho. É a forma como o trabalho é organizado e gerido que pode gerar impacto na saúde do trabalhador”, explicou. Ele cita exemplos comuns: pressão por metas, excesso de demandas, jornadas intensas, falta de apoio da liderança e conflitos entre equipes. Tudo isso entra no radar da norma.
Para lidar com esses pontos, a lógica é a mesma usada para outros riscos ocupacionais. Primeiro, a empresa precisa identificar os problemas. Depois, avaliar o nível de risco, criar medidas para reduzir esses riscos e acompanhar se elas estão funcionando. “Não se trata de avaliar a pessoa do trabalhador. O foco é olhar para as condições de trabalho e entender se elas estão funcionando como fatores estressores”, destacou.
Um dos pontos que mais chamaram atenção no debate foi a diferença entre tratar causas e consequências. Segundo Muller, muitas empresas ainda focam em ações que aliviam o problema, mas não resolvem a origem. “Meditação, yoga, terapia podem ser importantes, mas não são medidas de prevenção no âmbito do GRO. Elas atuam sobre as consequências, enquanto a norma exige que se atue sobre as causas”, afirmou.
A avaliação também foi reforçada pelo advogado Luiz Goedert, que destacou o aumento expressivo de afastamentos por problemas de saúde mental, como burnout. “Os números mostram as consequências. O desafio agora é olhar para as causas e demonstrar que a empresa atuou sobre elas”, disse.
Do lado jurídico, a advogada Érika Seddon apontou uma preocupação frequente entre empresas: a subjetividade na avaliação dos riscos psicossociais. “Há receio de que respostas individuais, influenciadas por fatores externos ao trabalho, possam levar a interpretações equivocadas e até à responsabilização da empresa”, afirmou.
Muller reconheceu que o tema é mais complexo, mas disse que isso não impede a aplicação correta da norma. “Sempre haverá algum grau de subjetividade, porque estamos tratando de fatores humanos. O que garante a qualidade do processo é o conhecimento técnico de quem está conduzindo a avaliação”, pontuou.
Outro ponto levantado foi a insegurança jurídica. Com o aumento dos afastamentos por transtornos mentais, cresce também o número de casos em que se discute se o problema foi causado pelo trabalho.
Para Muller, esse cenário ainda é desigual e desfavorável às empresas. “Hoje a relação está desigual. A perícia médica está ganhando de goleada, e isso acontece porque esse trabalho preventivo não está sendo feito como deveria pelas empresas”, afirmou. Segundo ele, a melhor forma de mudar esse quadro é investir em prevenção de forma estruturada. “Se as empresas fizerem bem esse trabalho, é possível equilibrar esse jogo. Não resolve tudo, mas muda significativamente esse cenário”, disse.
Apesar da pressão por adaptação, a mudança não deve acontecer de um dia para o outro. Muller lembrou que o próprio modelo de gerenciamento de riscos, em vigor desde 2022, ainda está em fase de consolidação. “Estamos falando de sair de uma lógica de cumprir papel para uma gestão real de riscos. Isso leva tempo”, afirmou.
Ele também explicou que, no início, a fiscalização terá caráter mais educativo. Nos primeiros 90 dias, os auditores devem orientar as empresas antes de aplicar multas. “O importante agora é começar. Se a empresa já tem avaliação, inventário de riscos e plano de ação, isso já mostra que está no caminho certo”, concluiu.
O webinar foi moderado por Daniela Bauab e Anderson Jardim D’Avila, que destacaram a importância de ampliar o debate sobre saúde mental no trabalho e ajudar empresas a entender, na prática, o que a norma exige. As atividades promovidas pela Britcham estão disponíveis no calendário da instituição.
Sobre a Britcham
Há mais de 100 anos no Brasil, a Britcham atua como principal promotora das relações econômicas e comerciais entre Brasil e Reino Unido, fomentando o diálogo bilateral por meio de iniciativas estratégicas. Presente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, a instituição mantém conexões diretas com entidades governamentais e privadas, organizando missões comerciais nacionais e internacionais, rodadas de negócios e projetos especiais para integração econômica.
Com 13 comitês temáticos que abrangem os principais setores da economia, como comércio exterior, agronegócios, finanças, tecnologia e sustentabilidade, a Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil facilita discussões setoriais, advocacy e a troca de conhecimento entre associados, executivos e autoridades. Além disso, a Britcham oferece uma agenda diversificada de eventos exclusivos, desde oportunidades de networking até debates sobre tendências globais, fortalecendo conexões qualificadas entre os dois mercados. Destaque ainda para o Clube de Negócios Britânicos no Brasil (GBBC) e o Grupo de Suporte aos Negócios, plataformas essenciais para impulsionar parcerias e investimentos bilaterais. Com uma rede que inclui desde multinacionais até PMEs, a Britcham proporciona agregação de valor institucional e comercial por meio de grupos setoriais, posicionamentos técnicos e acesso a informações privilegiadas, consolidando-se como referência em cooperação empresarial e inovação entre Brasil e Reino Unido.